Vela e fetichismos I

Já observou que vela e propagandas náuticas estão sempre vinculadas a grande embarcações? Ou super lanchas, ou super catamarans. Quando não, objetificando mulheres com suas nádegas expostas, ou no estilo norte americano, bigboobs aparentes em cada click.

O pior não é isso. O pior é o reforço da imagem realizada por grande maioria que é partilhador da cultura vélica. Raras excessões não mostram mais do que os seus cotidianos. Poucos vão adiante e desbravam os lugares, aprofundando em suas histórias, ou conceitos, valores, culturas.

Assiste-se muito o cotidiano vago. Ou então da vela e suas “surpresas”, problemas de motor, etc. Eu não sei se estou ficando mais chato que o comum, ou se sou apenas exigente e gostaria de ver mais coisas sobre cultura, história e lugares/pessoas. Um dos maiores canais do país, HASHTAGSAL é um exemplo de difusão da cultura vélica, mas ainda sentimos falta de uma realidade que aproxime o povo da vela.

Será que é medo de crowd no mar? Como surfista não gosto. Mas acho interessante demais democratizar mais o acesso. Se fala muito em compra, em espaços, em comparações de multicascos, grandes travessias, grandes feitos, histórias legais, perrengues….masss…

 

Cadê o povo na vela? Cadê o “affordable”, a possibilidade, a proximidade de poder aproximar pessoas da água, de embarcações. Canoas eram bens e artefatos tradicionais na vida de muitas comunidades, hoje é artigo de luxo. E paralelamente a cultura da construção naval de vai.

 

Vejo todos falando de delta, brasília, beneteau, etc. etc. mas pouco se fala sobre a possibilidade da construção. Do faça você mesmo.

Continuamos criticando o lifestyle, criando esse simulacro de que a vela é a “liberdade”a “natureza” e sim, é, intrínseco até mesmo a sua necessidade motriz; e ao mesmo tempo vê-se a mercantilização de tudo. Fala-se em desapego, mas ao mesmo desapego é comprado em altíssimos valores em veleiros prontos, usados, vistos como “oportunidade de negócio”. É isso. Velejar é só mais um negócio. A liberdade foi enlatada, youtubezada e vualá. Agora é comprar o veleiro, abrir canal, fazer um patreon e viver a liberdade ao máximo…..até o próximo wi-fi porque temos que postar os vídeos, ou então gastar aquela fortuna pagando uma net satélite porque “tem que estar conectado”…

São apenas questionamentos de até onde vai esse limiar. Muda-se o ambiente, físico, bom. Mas e o interior. E o mindset menos economicista? Eu não consigo ver rupturas reais com o antigo sistema, já que para a maioria se manter a viajar necessita constantemente da mercantilização de suas imagens. A venda de paisagens. Conceitos baratos de que alguns precisam pagar pra sonhar e os “outros”precisam fazer os viver….patreoncinados, obcecados pelo próximo wifi.

A pergunta é, como fazer essa ruptura, sem necessitar dos meios midiatizados pra rentabilizar suas viagens, e refletir sobre o que se produz de conteúdo sobre a vela, ainda mais sendo Brasil, Latino América e Planeta Terra.

Concentração de renda, usurpação dos recursos naturais, etc. Fala-se em motores, diesel, cabines espaçøsas, mas pouco se pensa sobre o consumo, sobre pegada ecológica, sobre como pessoas humildes podem fazer parte desse tão seleto grupo. Afinal, vela é só pra burguês e novo rico no Brasil!?

Os principais expoentes da vela no Brasil, têm o devir moral de poder assumir uma postura menos aristocrata da vela, tentar ampliar conhecimento e formas de inserção de um maior público para o mundo aquático. Afinal, acredito que o mesmo seja realmente mais sustentável, mais natural, aproxima pessoas da realidade e as põe num prisma de poder enxergar a existência e os macro meso micro ambientes como completamente interdependentes e que o modelo atual de consumo e de feitichismo desse super mundo burguês da vela seja reestruturado com mais partilha de informação e democratização ao acesso a embarcações e ao mundo náutico para pessoas em geral.

Leia mais posts e epifanias…

Vela e fetichismo I

Vela e fetichismos I Já observou que vela e propagandas náuticas estão sempre vinculadas a grande embarcações? Ou super lanchas, ou super catamarans. Quando não, objetificando mulheres com suas nádegas expostas, [...]

Idade e construção

Trabalho árduo, calos, cortes, talhos, mesmo com cuidado, trabalho bruto... Tem idade certa pra construir? Não sei, uma coisa é certa, eu tenho 33 anos, (2020) e sem modéstia, [...]

Mãos à obra

Construção do gabarito e quase começo Depois de escolher, estudar, digitalizar é hora de riscar os primeiros traços das cavernas, ou costelas, do barco. Já impresso e no [...]

Estudos e planos/plantas

A tradução do plano, a missão Depois de estudar e decidir o modelo, resta estudar, interpretar e quando se escolhe um barco da Polônia...traduzir! Aqui as linhas teóricas [...]

A escolha

A escolha do projeto, como e por onde começar. A escolha do modelo de projeto nem sempre é tarefa fácil. Depois de meses de pesquisa e estudo, conversa com projetistas e meditando [...]